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Quarta-feira, 16 de Dezembro de 2009

Poema à Mãe

No mais fundo de ti, eu sei que traí, mãe!

Tudo porque já não sou o retrato adormecido no fundo dos teus olhos!
Tudo porque tu ignoras que há leitos onde o frio não se demora e noites rumorosas de águas matinais!
Por isso, às vezes, as palavras que te digo são duras, mãe, e o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as rosas brancas que apertava junto ao coração no retrato da moldura!
Se soubesses como ainda amo as rosas, talvez não enchesses as horas de pesadelos...
Mas tu esqueceste muita coisa! Esqueceste que as minhas pernas cresceram, que todo o meu corpo cresceu, e até o meu coração ficou enorme, mãe!
Olha - queres ouvir-me? -, às vezes ainda sou o menino que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração rosas tão brancas como as que tens na moldura;
ainda oiço a tua voz: "Era uma vez uma princesa no meio de um laranjal..."
Mas - tu sabes! - a noite é enorme e todo o meu corpo cresceu...
Eu saí da moldura, dei às aves os meus olhos a beber.
Não me esqueci de nada, mãe. Guardo a tua voz dentro de mim. E deixo-te as rosas...       
( Eugénio de Andrade )

  Hoje passei pelo blog do meu primo João Francisco que já partiu há ano e meio e parei num poste que ele dedicou á mãe.

 Apercebi-me que tal como eu, ele procurava  em poesias exprimir os sentimentos. Talvez ainda arranje coragem e consiga ler para ela ouvir, preciso  de a sondar primeiro. 

 

publicado por Maria de Lourdes às 20:25
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